Lá vamos nós de novo

Ano passado eu fiz um teste de personalidade no trabalho e o resultado foi curioso, mas fez sentido de uma forma assustadora. Aparentemente eu tenho o tipo de personalidade reparadora. Como assim reparadora? Eu me perguntei? Cadê o introspectivo? Cadê o sensível?… Analítico, emotivo, criativo… Reparador não parecia como uma descrição de personalidade comum.

Porém, enquanto lia a descrição de minha personalidade todas aquelas informações foram se encaixando como uma luva. Reparador diz tudo sobre mim, desde minhas histórias de sucesso até na forma como eu me auto saboto. Eu sou o tipo de pessoa que se sente estimulada por um desafio, o ápice da minha existência ocorre quando estou consertando alguma coisa.

Seja essa coisa o ralo entupido na pia da cozinha, seja um pedaço de código HTML no trabalho… E como bem diria o ditado, quando tudo está em perfeita harmonia, ao invés de me sentir satisfeita, eu sou o tipo de pessoa que vai procurar sarna para se coçar. Não é como se eu não apreciasse a harmonia, na verdade, tudo dentro de mim está lutando para encontrar a harmonia.

A questão é mesmo ficar plena no estado harmônico, como se meu ser se entediasse com a falta de desafios. Isso não quer dizer que eu não deva correr atrás de uma vida tranquila, na verdade, tenho passado por momentos ruins demais ultimamente ao ponto de que minha personalidade está cansada demais para consertar

Ou será que estou apenas me auto sabotando para continuar em meio ao caos e sempre ter algo para fazer? Fica aí o questionamento.

Recentemente comecei o livro “o caminho do artista” de Julia Cameron, é como se fosse um curso para se conectar com a sua criatividade. Uma das principais tarefas é o que a autora chama de o encontro com o artista interior. Foi durante minha conversa com ele que a seguinte ideia me surgiu:

– Por que a gente não começa um blog para postar todos esses exercícios que faremos nas próximas doze semanas? – O artista me disse com entusiasmo.

Eu hei de ouvi-lo, afinal de contas, quantas vezes ele já não veio a mim com a mesma empolgação pedindo para nós começarmos um vlog sobre viagens, um blog de política, um e-book técnico. E todas as vezes eu o calei com a lógica dos fatos de que: – Eu nunca vou levar essa ideia a diante, nunca ninguém vai comentar nos meus conteúdos, para que me dar ao trabalho?

E tudo bem se eu escrever esses pensamentos negativos, na verdade o autor encoraja a gente a fazê-lo, a fim de desconstruir essas ideias e tentar dar nome as vozes negativas. Claro que minha personalidade reparadora olhou para todas essas tarefas e disse:
– Mas o que é que estamos esperando? Vamos logo pôr a mão na massa!

Então começa aqui minha jornada pelo caminho do artista. Não vou começar um blog novo se não eu nunca vou terminar algo que comecei. Vamos da forma que minha personalidade gosta, reparando um blog antigo que não funcionava mais.

Esse não é o único desafio em minha vida no momento, estou lutando contra uma depressão, problemas financeiros e estou escrevendo um livro. Sim eu finalmente disse em voz alta, estou escrevendo um livro, não está sendo fácil, mas já passou da metade, agora é real, oficial.

Se você quer embarcar nessa jornada comigo, deixa aí nos comentários, quantas vezes você acha que meu artista interior me mandou começar um blog ou coisa do tipo?

Até a próxima divagação!

É montanha-russa que fala, né?

Eu não me entendo, há uns 10 minutos atrás eu estava discutindo com minha mãe pelo whatsapp sobre feminismo e eu estava super empolgada. Até que minha namorada me ligou para falar sobre um show que ela gostaria de ir e agora estou me sentindo muito mal.

O que aconteceu foi que recentemente fiz exames ginecológicos rotineiros, ano passado havia surgido um mioma no meu útero e esse ano apareceu mais. Comentei brincando com minha mãe que eu não precisaria mais me matar escolhendo entre ter um filho biológico ou adoção porque aparentemente meu útero escolheu por mim.

Ela sugeriu que eu tirasse o útero logo de uma vez então, para não mais me aborrecer com menstruação, naquele momento eu fiquei empolgada pensando: – É hoje que eu consigo mostrar para ela que machismo é um problema seríssimo.

Comentei como quem não quer nada que isso não era uma possibilidade porque o meu corpo não era meu. Ela mordeu a isca e perguntou por que, e então comecei a explicar a ela que eu só poderia fazer isso com a autorização do meu marido. Sim, eu não tenho marido, e é exatamente aí que mora o problema. Segundo a sociedade, eu não tenho direito de tomar esse tipo de decisão sobre o meu corpo, pois ele não pertence a mim.

Eu sou uma mulher, e minha única função na sociedade é servir, servir principalmente como um útero para procriar filhos à um homem. Mesmo eu sendo solteira e namorando uma mulher, eu não tenho essa opção porque um dia um homem pode me escolher como propriedade dele e só então ele terá o direito de escolher sobre meu corpo.

Minha mãe parecia indignada, e eu fiquei empolgada. Minha mãe estava finalmente entendo o porquê de não podermos nos calar. Mas então ela jogou “A” perola que me muniu de raiva: – Isso deve ser uma estratégia do governo para não gastar dinheiro com esse tipo de cirurgia.

Não, minha mãe não havia entendido o problema, continuamos discutindo e eu continuei explicando a ela o real problema. Eu estava super empolgada, queria mostrar a ela vários artigos explicando como aquilo era problemático. Foi quando eu vi a mensagem da minha namorada pedindo para eu ligar para ela falar sobre o show.

Liguei então, achei que ela fosse conversar sobre dinheiro, pois o show é muito caro, mas ela começou a ligação dizendo: – Não sei se você viu nos meus stories, porque você não vê mais meus stories. – Foi aquele exato comentário que virou uma chave em mim.

A raiva empolgante que eu estava sentido enquanto conversava com minha mãe, a raiva que dizia: – Porra, mãe, como é que você acha que o problema é dinheiro quando nós somos tratadas como propriedade, por que isso não te indigna? – Se transformou numa raiva melancólica: – Porra, depois de tudo que eu tenho feito por você, você tem a pachorra de reclamar que eu não vejo stories?

Eu não vejo stories mesmo, eu não uso instagram, eu não tenho paciência para entrar todo dia, e esse negócio só dura 24h, fora que não recebo notificação pelos stories como recebo quando ela posta no feed. E ela quer achar isso ruim?

Eu senti a exaustão tomando conta do meu corpo, mas mantive a calma para ouvi-la pois sabia que se ela queria falar é porque não estava bem, acontece que eu também não estava bem. Havia escolhido ir almoçar sozinha porque eu queria passar aquele tempo as sós. Percebi então enquanto mastigava minha comida que eu queria estar sozinha porque sinto que ninguém vem se importando comigo.

Minha namorada não se importa com o livro que estou escrevendo e tudo que eu quero é me isolar. Não contei a ela que essa semana já escrevi dois capítulos, não sei porque eu tomei essa decisão. Acho que parte dela foi tomada pelo ego, como se ela tivesse perdido o privilégio de fazer parte do meu projeto.

Outra parte é uma tentativa minha de ver quanto tempo ela demoraria para me perguntar do livro, nas fantasias da minha cabeça já conseguia imaginá-la daqui três meses me perguntando do livro e eu responderia: – Já terminei, já! – E pensaria comigo mesma: – Olha só como você pouco se importa comigo, terminei o livro e você nem sabia.

Tem também uma terceira parte de mim que queria sim contar a ela, queria compartilhar meu alivio de mais uma pequena vitória. Mas também tinha uma parte que tem medo de ela não dar a atenção de novo e eu ficar ainda mais chateada.

Talvez uma parte de mim esteja só com preguiça disso tudo e só quer escrever o livro em paz. Só que eu sei que estou cansada de estar sozinha, é uma sensação contraditória. É como se eu quisesse passar um tempo só comigo mesma sem precisar me adequar às expectativas dos outros e ficar livre das minhas próprias expectativas em relação a eles.
Sinto muita falta daquela pessoa por quem me apaixonei que costumava ser tão interessada na minha vida, que cuidava de mim, que me fazia bem. Hoje em dia eu preciso pedir para ser cuidada. Eu só quero me isolar, e eu sei que isso é o contrário do que eu deveria fazer.

Eu sei que isso é um sinal, eu sei as ferramentas para sair desse lugar. Porem tem uma parte de mim que só quer muito continuar se sentindo ruim assim.

Eu parei de tomar Fluoxetina (por conta própria) e não senti nenhum efeito ruim. Da mesma forma que não senti nenhum efeito bom quando comecei a tomar. Claro que estou mais estável, menos raivosa, menos agressiva. Mas a minha queixa principal ela não ajudou.

Eu quero sentir prazer, não lembro quando foi a última vez que senti prazer, isso me desespera. Eu queria algo que eu pudesse tomar que me desse prazer. Como uma droga que você toma e a brisa vem. Entretanto não vou escolher esse caminho.
Queria que houvesse um caminho que eu pudesse seguir que não fosse esse.
Eu tenho pensado muito em suicídio, simplesmente pelo fato de que esse esforço todo que eu tenho tido não faz sentido nenhum se eu não tenho nenhuma recompensa.
Eu queria dormir até morrer. Talvez me matar fosse fácil e sem dor. Porem até nisso eu tenho obrigações. Eu fico pensando em como minha namorada e minha mãe iam se sentir e eu não posso fazer isso com elas.

O primeiro capítulo que escrevi nessa semana foi na segunda, com muita dificuldade, foi muito difícil escrever e, particularmente, eu achei que ficou uma bosta. Voltei para casa de minha mãe me sentindo uma merda, estou gastando todas essas horas para escrever esse livro, mas ele é idiota, é ridículo, minha escrita é ridícula, a história é infantil demais, ninguém vai ler isso. Para que eu estou fazendo isso?

É muito cansativo! Eu estou muito cansada eu não consigo fazer nada. As outras pessoas fazem de tudo, as outras pessoas têm filhos, e compram casas, e trabalham duro, e tem sucesso na vida, e fazem de tudo sem se cansar.

Mas eu não consigo! Para que continuar seguindo em frente então se eu sou esse fracasso todo?

Me sentei para escrever de novo na terça-feira, a vontade de escrever não vinha de jeito nenhum. Optei então por revisar o último capítulo, mas ele não me pareceu tão ruim, sei lá. Na quarta sim eu consegui finalmente escrever sem esforço e foi maravilho, eu escrevi e achei que ficou ótimo, voltei para casa de minha mãe pensando que o livro ia ser um sucesso. Assisti vídeos de outras escritoras me senti muito feliz, senti que eu estava no caminho certo.

Só que agora, após falar com minha namorada não me sinto mais assim, me sinto novamente como se eu estivesse perdendo tempo escrevendo, não vai dar em nada e ninguém nunca vai ler esse livro.

É muito difícil me sentir tão descontrolada.

Uma tentativa frustrada de crônica

O que tem de tão engraçado na vida, que faz todos nós nos questionarmos sobre o real sentido da existência? Não apenas questionar, antes fosse tão simples. Nós discutimos, brigamos, declaramos guerra, cada um teimosamente lutando pelo seu ponto de vista que nunca na verdade foi comprovado.

Durante apenas um dia passam pela sua cabeça filosofias malucas de como o universo é tão imensamente grande que te faz sentir como se você infinitamente mundano e inferior. Mas então, ao olhar-se no espelho de manha cedo enquanto você lava o rosto, você vê sua gandula lacrimal na pálpebra que te faz perguntar-se como é possível sermos tão exuberantemente perfeitos?

Vivendo em sincronia, organizadamente desorganizados, num mundo onde existe uma cadeia alimentar que mantém todos os seres em ordem. Se não existisse um inseto insignificante, toda essa cadeia cairia em desgraça. Como pode a própria morte ser a razão da existência? Como pode algo tão simples parecer tão cruelmente natural? Você nem sente culpa ao mastigar um pedaço de picanha que um dia pertenceu a um animal que vivia e tinha alma.

E enquanto mastiga mecanicamente durante a hora do almoço, o tempo passa rápido ao ouvir o seu colega contando uma piada que você ri sem achar tanta graça. Com tédio você olha para o prato e percebe que não tem ideia de como aquela comida chegou ali. Ela nasceu da terra, foi colhida, foi industrializada, foi comercializada, foi transportada, foi cozinhada, e por fim foi parar no seu prato.

Isso porque o mundo tem uma cadeia alimentar completamente justa e balanceada. É nesse exato momento que você começa a se sentir superior. Nossa! Você nem precisou caçar a própria comida. Segundo Darwin você é um resultado de uma evolução seletiva.

Agora você se sente completamente convencido, porque foi capaz de evoluir enquanto os outros ficaram para trás, e é por isso que hoje você só caçaria se fosse por esporte. Pensando bem, você evolui bastante. Você inventou a escrita, o que foi capaz de melhorar a comunicação. Você ganhou direito ao voto em uma democracia quase nunca honesta.

E no auge de seu delírio narcisista você vê uma pessoa maravilhosa passando ao seu lado na rua e você salta do pico do mundo para o lixo da sociedade. Você se sente feio, se sente um idiota, acha que deveria começar a fazer uma dieta porque está engordando demais. O que você estava pensando? Você? O pilar da sociedade? Claro que não, você não passa de uma cópia malfeita dos seus pais, com pontos de vistas interessantes que você leu no jornal, pronto para citar frases belas e inteligentes que um dia foram ditas por pessoas famosas que já morreram.

Você, o caso de sucesso da evolução humana não passa de um formiguinha, perdida no meio de muitas outras formiguinhas, tão insignificantes quanto um inseto na cadeia alimentar. Você é um ser, preso num emprego sem perspectiva, vivendo numa metrópole que nem é assim tão cosmopolita quanto outras espalhadas pelo mundo que são muito mais glamorosa que a sua. E por falar em mundo, a terra é insignificante para o universo como você é para o mundo. Imagina então comparar-se ao universo.

Você balança a cabeça negativamente, está digitando um relatório à tarde enquanto reclama em silencio que está cansado dessa vida. Viver, comer, respirar, coisas que você faz continuamente sem se dar conta. Porque se preocupar tanto se vamos todos morrer no final, e toda aquela vida, toda aquela história, todo aquele ser glorioso repleto de sonhos e conquistas um dia vai virar mera poeira ao vento.

– Para que se importar em viver?

Você se pergunta enquanto espera o trem chegar à estação. Você olha para baixo e sente tontura ao ver os trilhos, perguntas sobre a capacidade da engenharia humana passam pela sua cabeça enquanto você pensa como seria simples morrer. Se em um momento de pura displicência você cair da plataforma, o trem acabara com todos os vestígios da sua vida medíocre. E naquele momento você sente medo! Você não quer morrer, naquele momento você sente como se tivesse acabado de começar a viver. Você pede a Deus para que tenha piedade. Você quer conquistar seus sonhos, quer conhecer alguém para amar, você quer ter um filho. Basicamente, você quer o que todo mundo quer.

Você se pergunta, como é que pode a vida acabar um estúpido momento? Você queria saber exatamente quando você irá morrer, porque sabe que isso será inevitável. Sempre imaginou-se deitado numa cama, velho e moribundo, e num piscar de olhos você passaria dessa para melhor. Vivendo eternamente no paraíso. Mas desde quando a vida algum dia foi justa? E quem pode jurar que quando a morte chegar você não vai simplesmente se acabar, deixar de existir, terminar?!

Você termina de escovar os dentes, chegou a melhor parte do dia, se sente confortável vestindo o pijama favorito, que já deveria ser aposentado por excesso de uso. Na sua boca o gostinho de menta te faz feliz com a expectativa de algumas horas de sono. Deitado no escuro, você começa a especular sobre as maluquices que se passam na sua cabeça. Talvez toda essa história não passou de sua imaginação.

Como diriam os surrealistas as coisas acontecem porque você as quer assim. Será que quando você deixa um local ele não mais existe? Você ri com as loucuras, e começa a acreditar que na verdade o mundo gira em torno de você. Que todo mundo esta te estudando, que todos têm acesso a sua mente. Que você é um caso bizarro do Grande Irmão.

Aos poucos seus pensamentos vão se dissipando, se transformando em sonho, e a ultima coisa que você pensa antes de entrar no REM é o quanto você ficaria feliz se tivesse um filho para cuidar e uma pessoa especial para amar. Embora nossas mentes façam um exercício diário teorizando cada aspecto de nossas vidas, no final, o que prevalece são os instintos de sobrevivência pessoal e da espécie!

Egoísmo nosso de cada dia

Aprendi o comportamento de esquiva com minha mãe, desde quando eu era bem pequena ela me dizia que se algo não está bom mim eu precisava sair de lá. Isso porque ela viveu em um relacionamento abusivo meu pai e não queria que eu passasse pelo mesmo.

Ser criada dessa forma não evitou que eu sofresse abusos. Muito pelo contrário, aquilo sempre me colocou no papel de vítima, me tornando alvo fácil de predadores. Eu nunca aprendi a dizer não, eu só sabia fugir.

Fugir poderia me preservar, mas fugir também me impossibilitava de criar laços e entender a complexidade do ser humano. Pessoas são complicadas, somos cheios de complexos, nunca fomos ensinados a nos comunicar.

Viemos ao mundo completamente egoísta devido nosso estado vulnerável ao nascer, é um instinto de sobrevivência. Precisamos que os outros façam coisas por nós para que consigamos sobreviver. Essa carência se prolonga para o resto da vida, porque por mais que ganhemos independência, a cada dia que passa percebemos que ninguém é autossuficiente, por isso vivemos em sociedade.

No fundo, é muito difícil perder aquele sentimento egocêntrico, nascemos achando que os outros são uma extensão de nós, como se nosso cérebro comandasse a mãe para nos dar o ceio. E desde então vivemos num conflito eterno de expectativas não realizadas.

— Por que você não me dá o peito quando eu quero?

— Por que você me obriga a estudar quando eu quero brincar?

— Por que você não entende que eu preciso ir na festa para manter meu status quo?

— Por que você está dando em cima da pessoa que gosto?

— Por que você não me nota sendo que eu estou apaixonada?

— Por que você não reconhece o meu trabalho e só critica?

— Por que você promoveu outra pessoa?

— Por que você deixa a toalha molhada em cima da cama?

— Por que você não sai do trabalho mais cedo para passar tempo comigo?

— Por que você não para de chorar por leite, estou cansada?

— Por que você não para estudar se brincou o dia inteiro?

— Porque você quer ir na festa se ainda é nova demais?

A perspectiva pode até mudar, mas o foco é sempre no ego. É um infinito conflito com o você baseando sempre nas suas expectativas. Como se estivéssemos num conto de fadas, sempre a mocinha da história, rodeada de personagens secundários que nos apoiam e um você malvado que entra em conflito com nossas expectativas.

Estaremos sempre confinados a acreditar que os outros estão sendo egoístas, sendo que nunca abrimos mão se nosso próprio ego para entender o outro lado.

Não, eu não acho que uma pessoa deva se manter num relacionamento abusivo, porém, a linha é muito tênue, inclusive para nós mesmos. Se pergunte quantas vezes na vida você foi intolerante aos sentimentos alheios? Quantas vezes você usou da fraqueza alheia para manipular e conseguir suas vontades? Quantas vezes você não deixou de ajudar alguém?

Minha crítica é em relação ao ciclo vicioso no qual muitas pessoas nunca aprendem a se comunicar. Posso falar com propriedade pois foi essa a criação que eu tive. E antes de acharem que estou criticando minha mãe, saiba que não. Eu realmente acho que ela fez o melhor que ela podia com o entendimento que ela tinha sobre vida.

Minha mãe me colocou no papel de vítima, logo quando eu nasci. Desde a forma que ela me protegia como uma leoa, até nas coisas que ela dizia. Sempre enaltecendo minha beleza, superestimando minhas qualidades. Cresci acreditando que eu era um serzinho perfeito que todo mundo deveria celebrar. Mas a realidade da vida chocou como um trem desgovernado em minhas expectativas.

Em nenhum momento minha mãe me ensinou a me defender sozinha, pois ela sempre estava lá para lutar por mim. Em nenhum momento ela me ensinou que existem pessoas que não iam gostar de mim, e isso me deixou frustrada com a realidade. Em nenhum momento ela me disse que as pessoas são complexas, ela me ensinou desde cedo a fugir de qualquer coisa que me fizesse mal de alguma forma.

Lembro vividamente dela culpando a minha melhor amiga na sexta série pelo fato de eu sofrer bullying.

— Ela é uma repetente, os seus colegas vão tirar sarro de você.

Reforçando o meu papel de vítima, reforçando meu comportamento de esquiva. Eu não queria lidar com o bullying, eu passei o resto do colegial sozinha, sem prestar atenção na aula, rezando para aquele inferno acabar logo, implorando para minha mãe me trocar de escola.

Eu nunca aprendi a me defender, a xingar de volta, a bater de volta. Eu nunca parei para pensar no por que eles faziam aquilo comigo. Só sabia ser a vítima indefesa, que tinha fantasias limítrofes sobre perder o controle atacar todo mundo como no livro Carie a estranha.

Esse comportamento seguiu comigo para vida adulta. Eu tentava namorar com homens e por culpa da heteronormalidade, eu não entendia porque eu não gostava deles. Por culpa de traumas do passado eu não entendi o que me fazia sentir tão mau. Eu simplesmente fugia deles sem explicar o motivo. A minha vida era uma confusão.

Por muito tempo da minha vida adulta, tudo o que eu tinha era a minha mãe. Fazíamos tudo junto, inclusive, eu me sentia tão impotente, que dava todo o meu salário a ela, para que ela decidisse como gastá-lo da melhor forma. Não tinha amigos, apenas colegas, não tinha relacionamentos amorosos que sobreviviam as primeiras intimidades.

Ainda sinto o enjoo que senti aos 20 anos, quando achei que estava construindo um relacionamento com um homem descente. Ele era testemunha de Jeová, na minha cabeça ele nunca iria me forçar a nada pois era crente e teria que esperar até o casamento.

Fomos viajar juntos, estávamos juntos num chalé no campo, ele tentou de todas as formas ir para cama comigo. Eu falava para, eu falava não, ele continuava. Não foi a primeira vez que aquilo acontecia comigo, pelo menos daquela vez eu tinha dito não. Mas o não era uma palavra vazia. Sei que ele não teria parado se eu não tivesse saído do quarto e buscado abrigo com minhas colegas.

Para ele, nada demais havia acontecido, só tinha dado uns amassos na futura namorada. Para mim foi uma noite de terror, um sentimento de invalidez. Quando voltamos para casa, eu fiquei doente, uma virose… Era mesmo virose? Ou era meu psicológico colocando para fora todos os meus sentimentos.

Ele ficou do meu lado, todo carinhoso, segurando o meu cabelo:

— Sai daqui! — Eu implorava entre golfadas.

— Mas por quê? — Perguntava sem entender.

— Por favor, por favor, sai daqui! — Eu continuei a implorar até que minha tia conversou com ele e o convenceu de ir para casa.

No dia seguinte, ele voltou para me visitar, tentou me beijar, mas eu neguei. Terminei com ele, disse que não queria mais aquilo. Ele não conseguia aceitar, queria saber o motivo, para ele tudo estava indo muito bem. Ele perguntou por que, pediu um motivo.

Eu queria dizer que não estava pronta para ter aquele tipo de intimidade e eu não entendia por que. Eu queria falar que pedi várias vezes para ele parar e ele não parou. Eu queria dizer que eu estava confusa, que eu não sabia se eu queria realmente ter esse tipo de relacionamento com um homem

Mas não tive forças para dizer isso. Eu simplesmente fugi. Não, eu não estou passando pano para um macho escroto. Mas talvez ele realmente não tinha percebido o que fez algo de errado, talvez ele precisasse de alguém para explicar que não é certo tentar continuar depois do não. Talvez ele precisasse ouvir de alguém que eu não estava fazendo charme para conquistar.

Talvez ele precisasse aprender aquela lição. Porque talvez ele cresceu sendo ensinado que ele era um deuzinho e que todas as mulheres seriam sortudas de tê-lo como namorado. E não, eu não estou dizendo que é certo insistir em um relacionamento abusivo.

Acontece que a linha é de fato muito tênue. Todos nós somos abusivos, nem que sejamos abusivos dentro do nosso papel de vítima.

Relacionamentos são construídos com troca de ideias, conversas. É preciso explicar nossos sentimentos, explicar por que estamos com raiva. Fomos treinados desde criança a acreditar que o você é egoísta para com nossos sentimentos e vontades. E dessa forma, quando o você demonstra o egoísmo nos pegamos dizendo:

— Tá vendo só? Eu disse!

Dependendo da criação que tivemos, acabamos tendo diferentes tipos de reações. Falando apenas do meu relacionamento atual em específico, minha namorada aprendeu a se defender do egoísmo alheio de forma controladora, enquanto o você fizer o que ela quer, tudo estará bem. Já eu aprendi a lidar com o egoísmo com comportamento de esquiva, porem algo diferente aconteceu quando me relacionei com ela.

Primeiro porque o sentimento que senti por ela foi algo forte demais, eu não queria fugir dele. Segundo, porque como eu aprendi a ser frágil e aceitar que as pessoas iriam sempre abusar de mim, eu me cedi aos controles dela. Quanto mais ela me controlava, mais segura ela se sentia. Quanto mais controlada eu me sentia, mais desesperada eu me sentia.

E isso acabava em brigas homéricas quando eu finalmente explodia.

Eu acho que a principal função da nossas vidas aqui na terra é perceber que o egoísmo é um mecanismo de defesa. É preciso aceitar seu próprio egoísmo, para aprender a lidar com o egoísmo alheio. Compreender que seres humanos são falhos e aprender a lidar com cada um em sua individualidade particular.

Mas acima de tudo, é preciso cumplicidade para se abrir e explicar os seus sentimentos, sem medo de julgamento, e cumplicidade o suficiente para ouvir sem levar para o pessoal.

O que dizer?

Ok, acho que estou melhorando. Estou ciente de que recaídas são normais, mas acho que estou me sentindo melhor. Esse ano já começou com toda a força, tanta coisa já aconteceu em tão pouco tempo. O que dizer de 2019 que mal começou e já considero pakas?

É hora de planejar o ano, definir objetivos e resoluções. Já ouvi falar que resoluções de começo de ano são a maior furada, que se você quer começar algo pode fazer a qualquer momento. E concordo com isso, mas acho que o começo do ano tem algo muito poderoso que nos ajuda com boa energia para conseguir dar esses primeiros passos com mais facilidade.

2018 foi o ano de Júpiter, ano de muito excesso. Não duvido que tenham sido todos esses excessos que me fizeram ficar exausta. Mas agora entra Marte, deus da guerra, 2019 é o ano de ir à luta e conquistar os objetivos.

Não quero agourar as coisas falando isso, mas eu já sinto toda essa gana de realizar meus desejos. Acho que a melhor novidade que trago é que comecei a escrever um livro. Sim, um livro, sempre quis escrever um livro, nunca tive vontade os suficientes para me esforçar. As vezes nem era preguiça por si só ou falta de inspiração, quando eu me forçava a escrever, as coisas fluíam. A questão é que eu não gostava do resultado e era muito desmotivador.

A ideia do livro me veio num sonho ainda em 2018, como se fosse um pedido de desculpas pela porcaria de ano que tive que viver. (Ok, nem tudo foi ruim, mas…) Já se passaram três semanas de janeiro e eu já tenho quatro capítulos prontos. É empoderador.

Mas também é muito assustador, pareço estar tão longe o final, que a minha insegurança fica falando que eu vou desistir no meio do caminho. Como eu disse, não quero agourar as coisas, mas sou extremamente grata por Marte e toda a força de vontade que ele tem me proporcionado.

E não vejo esse efeito apenas na vida pessoal não. Devo confessar que eu estava muito ansiosa em voltar de férias, eu achava que não havia descansado o suficiente, que logo precisaria voltar ao trabalho só que eu ainda me sentia exausta demais.

Os primeiros dias de home office foram terríveis, eu não conseguia ser produtiva. Já estava me desesperando, querendo acabar logo com essa depressão maligna que me enche de cansaço. Mas sabe quando você tenta começar a pedalar na bicicleta e ela fica pesada, meia bamba, até os pneus pegarem o ritmo? Foi assim que me senti, graças a Deus os pneus pegaram no ritmo.

Essa semana que passou me deixou muito feliz, estou empolgadíssima com meu trabalho, estou com uma autoestima altíssima. Sinto-me capaz de realizar bem meu trabalho. Tive três momentos essa semana que me provaram isso.

No primeiro, minha antiga estagiária veio me cobrando uma tarefa. Minha primeira reação foi me sentir ruim com aquilo, como sempre me sentia. Pensando que ela deve me achar a pior funcionária do mundo, aquele tipo preguiçoso que nunca faz nada, uma braço curto!

Eu respirei fundo, eu disse a mim mesma:

– O que você acha que os outros acham de você não é a realidade! Não tem como saber isso!

– Ela pode estar te cobrando porque tem gente cobrando ela também. E ela precisa disso para mostrar trabalho e conseguir ser promovida.

– Se ela realmente te acha uma preguiçosa não faz a menor diferença. O que os outros pensam de você não é da sua conta.

– Você não é preguiçosa, você faz um excelente trabalho, você não entregou pois não teve tempo de ver isso.

Foi meu mantra naquela manhã. Depois eu precisei ter uma conversa séria com uma amiga de trabalho, precisei me impor, e consegui fazer isso sem me alterar. Fui calma, e controlada e consegui falar meus argumentos de forma coerente. A conversa foi maravilhosa, fiquei muito orgulhosa.

Por fim, meu chefe voltou na quinta-feira e eu sentei com ele para conversar sobre os planos de trabalho do ano. Também quis mostrar para ele todas as coisas que eu havia feito. Senti que ele gostou muito de tudo. Isso me tranquilizou, pois tenho muita insegurança em relação a ele. Sinto que ele não gosta do meu trabalho e não confia nas minhas habilidades.

Pois é, estou realizando coisas, e isso me deixa feliz. Estar feliz não significa estar curada da depressão. Estar realizando todas essas coisas também não significa que estou curada do cansaço. Ainda estou muito cansada, só que agora sei que eu consigo continuar mesmo exausta.

Perguntas e respostas…

Estou bem, melhor do que eu esperava, eu juro. Mas ainda assim eu sinto como se algo estivesse faltando. E caramba, se existe algo que não quer me dar tréguas é o cansaço. Eu achei que as férias seriam um ótimo momento para recarregar as energias, mas parece que qualquer esforço exige muita energia e eu acabo ficando letárgica. Será que estou envelhecendo? Será que isso é parte da depressão? São muitos questionamentos para pouca resposta.

Eu lembro que quando fiz 27 anos entrei num nível de cansaço que nunca tinha sentido na vida, atribui à velhice. Fazia muito sentido pois eu havia lido um artigo que dizia que o nosso corpo atinge o pico do crescimento com 27 anos e depois disso ele só envelhecia. Foi terrível me adaptar ao novo corpo, qualquer coisa me cansava, eu comecei a tirar sonecas vespertinas, meus estomago não aceitava mais ficar comendo porcarias sem reclamar, engordei horrores e não mais emagrecia com a mesma facilidade. Defini que estava envelhecendo.

Que tudo ficaria bem se eu perdesse meu cabelo e minha juventude
(That I would be good — Alanis Morissette)

Me adaptei ao cansaço, mudei a rotina, mudei a alimentação, me acostumei. Hoje o cansaço subiu de nível novamente, e eu me pergunto se meu corpo envelheceu novamente? É muito triste, eu já acordo cansada, sem vontade de fazer as coisas em casa. Eu fico observando as outras pessoas, principalmente as mais velhas, e eles tem um pique invejável. É impossível não me sentir como se eu estivesse falhando em alguma coisa.

Mas o cansaço é maior que eu. Então se não for a velhice, será que é a depressão? Venho pensado muito sobre o que é depressão e na concepção das pessoas, são várias definições: uma tristeza muito grande; uma vontade de se suicidar; uma incapacidade de deixar o passado para traz… Eu não sinto nada dessas coisas, só me sinto extremamente cansada e não consigo sentir prazer em viver, beirando um vazio existencial.

Que tudo ficaria bem mesmo quando eu estiver saturada

Recentemente eu li o livro Caixa de Pássaros de Josh Malerman, uma simples e eletrizante história sobre criaturas que apareceram na terra e que quando vistas fazem as pessoas agirem violentamente e se suicidarem. Muitas pessoas vêm especulando o significado dos monstros, eu mesma gostaria de falar sobre a minha interpretação, por isso possíveis spoilers se encontram a seguir.

Eu tinha várias teorias sobre os monstros, mas principalmente relacionei o livro todo com meu atual estado emocional. Hoje fiquei sabendo que quando Josh Malerman era crianças ele havia ficado impressionado quando aprendeu em aula sobre o infinito e isso o causou muito medo. Na concepção dele o livro conta a reação que cada pessoa teria ao se deparar com o infinito.

Curiosamente, o infinito sempre me intrigou, ainda quando criança eu me pegava pensando sobre o infinito, que matematicamente parece simples, pensar que sempre haverá um número maior, porem quando pensava no universo me sentia de fato estranha. Ao pensar que mesmo que o universo tenha um fim, algo deveria vir depois dele, e algo deveria vir depois desse algo e assim seguia infinitamente.

Mesmo eu sendo uma criança com um pensamento crítico limitado, eu já me pegava me questionando qual seria o sentido da vida? O que significaria morrer? Ou melhor ainda o que significava viver? Quem era Deus e quem era o deus de Deus? Eu rapidamente me entretinha com alguma brincadeira e não pensava mais sobre o assunto até o próximo questionamento surgir.

E essas perguntas seguiram comigo, porem hoje não tenho uma brincadeira para me fazer feliz. Tudo que me dá prazer também exausta minhas energias, e tudo que me resta são os questionamentos. Qual o significado de tudo isso? Como posso achar que minha existência tenha alguma importância se eu não passo de um ponto perdido no infinito? Por que estou aqui? Por que acordamos todos os dias para trabalhar e manter uma vida funcional, para ter o que comer, para se manter vivo se no final vamos morrer?

E quando morrermos, será que existirá vida após a morte ou iremos apenas deixar de existir? Para que passar por todo esse esforço? Para que pagar boleto atrás de boleto se não vamos chegar a lugar nenhum? O que são essas emoções que sentimos e porque elas existem? Por que formamos laços com as pessoas? Se no final não passamos de máquinas que precisam se alimentar para manter-se funcionando?

Que tudo ficaria ok se eu perdesse todo meu dinheiro

Por que temos medo de morrer? Porque temos o instinto de se manter vivo e de se procriar para perpetuar a espécie se nada vai acontecer caso não existirmos? Qual o sentido de tudo isso? A cada vez que me questiono me sinto mais vazia, me sinto mais como uma máquina. É agonizante esse sentimento.

Que tudo ficaria bem mesmo se eu perdesse minha sanidade

Agonizante igual a reação que as pessoas do livro têm quando se deparam com os monstros. Elas não aguentam olhar para o infinito e acabam enlouquecendo e se matando. E toda a tensão que as pessoas sentem enquanto se mantem vendadas evitando olhar para o monstro me lembra muito a ansiedade. No livro, diferente do filme, os monstros nunca atacaram, não havia razão apara temê-los enquanto não os olhassem. E ainda assim, as pessoas se desesperavam com aquilo que não podiam entender.

É exatamente como eu venho me sentido em relação a tudo, eu não consigo lidar com esse vazio existencial que eu venho sentido, mas também tenho muito medo de tudo que eu não consigo ver, do futuro, da ideia de fracassar, da ideia de morrer.

Que eu ainda seria importante se eu não soubesse de tudo

Recentemente minha mãe nos presenteou, minha namorada e eu, com vales compras na Marisa no valor de R$ 100 cada. Quando fomos a loja comprar roupas, eu me apaixonei por um lindo shorts, ele era maravilhoso, me caia perfeitamente bem. Já podia me imaginar usando ele na virada do ano, usá-lo para andar na praia, eu estava muito empolgada, principalmente por ele ser da numeração 48, já fazia anos que eu usava acima de 50.

Que tudo ficaria bem se eu engordasse 10 quilos

Porém, o shorts custava exatamente R$ 99 enquanto minha namorada tinha encontrado três blusas diferentes pelo mesmo preço. Ele era exatamente o que eu queria, mas não podia deixar de pensar que ela tinha se saído melhor do que eu. Pensando agora eu não sei porque tomei a decisão que tomei, só sei que foi a pior de todas.

Acho que foi uma mistura de culpa por escolher algo tão caro, com o fracasso por ter escolhido apenas um presente contra três dela, com a pressão que eu senti quando minha própria namorada começou a falar que eu deveria reavaliar minha escolha, e com a minha voz da razão que dizia que eu não poderia usar o shorts para trabalhar.

Acabei trocando o shorts por uma blusa de R$ 70, minha namorada continuou com mais roupas do que eu, mas pelo menos poderia usar o meu presente para trabalhar. Durante todo o momento que estávamos no caixa eu me senti muito ruim, porque eu queria o shorts, eu queria o shorts e talvez ele fosse me fazer feliz.

Saímos da Marisa eu estava quase em prantos, e não queria que minha namorada soubesse. Ela disse várias coisas que eu não computei direito, só fingir rir enquanto engolia o choro. Eu queria o shorts! Me senti uma criança mimada que queria chorar porque não ganhou o que ela queria.

Não era a primeira vez que tive que lidar com essa sensação nesse mês, ouso até admitir que seja inveja por minha namorada ter conseguido algo legal e eu não. Gosto muito de planners e bullet journals, eu já vinha planejando como seria minha agenda de 2019 e procurando na internet decidi que queria um caderno pontilhado da Tilibra.

Um dia quando cheguei em casa, minha namorada havia comprado o exato caderno que eu queria para ela. Fiquei muito empolgada, pedi para ela me levar a loja para comprar um para mim também. Chegando na loja eu não consegui encontrar mais o caderno que queria. Eu me senti muito mal, muito triste, tive que escolher por um outro planner.

É difícil lidar com sentimentos assim, foi horrível chegar em casa da Marisa e olhar para blusa que eu escolhi e pensar que ela era horrível, que eu deveria ter escolhido o shorts. Será que estou sendo mesquinha e mimada? Ou será que eu tenho o direito de me sentir frustrada?

Que tudo ficaria bem se eu continuar doente

Ou será que eu só me sinto assim porque estou deprimida? Eu tive uma crise de choros sem lágrimas ao sair da Marisa, e não lembro da última vez que me senti tão fraca por algo tão bobo. Como comentei no início, são muitos questionamentos para poucas respostas.

Humores que oscilam

Fazem quase dois meses que eu comecei o tratamento com Fluoxetina. Eu de fato me sinto mais calma em relação a tudo, acho que o remédio tem tratado muito bem a minha ansiedade, a parte da depressão, porém, não tenho tido muito sucesso. Minha terapeuta levantou um ponto interessante, talvez eu não tenha uma depressão simples, talvez eu tenha depressão com oscilação de humor, e por isso a Fluoxetina não terá muito efeito.

Terei de trocar de medicamento. É uma pena, pois eu realmente gostei do efeito da Fluoxetina na minha ansiedade, me sinto bem controlada ultimamente. As brigas, irritações e o controle da raiva melhoraram horrores. Mas ainda estou esperando a hora que o prazer vai bater com força. Tive sim momentos de prazer nos últimos meses, mas eles nunca duram, isso nunca é legal.

Senti que muita coisa fez sentido no que minha terapeuta disse, eu realmente tenho oscilações de humor muito frequentes. Não é bipolaridade, pois as mudanças de humor são sutis, e isso explica muita coisa! Sempre devaneei o motivo pelo qual eu era a primeira pessoa a pedir desculpas, a perdoar. Eu achava muito injusto pois as pessoas nunca admitem sua parte no problema, apenas eu. Mas era mais forte que eu, não sabia porquê, tentei analisar os motivos da minha submissão, talvez algum trauma do passado.

Mas a verdade é que eu apenas mudava de humor, não estava mais brava com a pessoa, não via mais motivos para ficar brigada. Claro, isso é muito injusto, as pessoas ficam bravas comigo por uma semana inteira, sempre fico me sentido como se os sentimentos deles são mais importantes que os meus. Mas pelo menos agora eu entendo que não é uma competição.

Por exemplo, antigamente eu achava que o tamanho do período que uma pessoa ficava chateada com a outra era equivalente ao tamanho da burrada que a outra pessoa tinha feito. E de fato é muito injusto pensar dessa forma, não posso comparar o tamanho do período, por causa das minhas oscilações de humor eu sempre vou ficar menos tempo chateada, e sempre vai parecer que a burrada que eu fiz foi mais feia que a da outra pessoa.

A questão é que cada um tem seu tempo, e o meu tempo parece ser mais acelerado do que o das outras pessoas.

Também não posso afirmar que não tive nenhum prazer nos últimos dias, voltando para casa no meu último voo eu tive uma explosão de felicidade. Por estar entrando de férias, por ter tido ótimos momentos com os amigos do trabalho, porque ia ficar um mês seguido em casa com minha namorada, iria rever minha sobrinha, iria finalmente descansar.

Mas dois dias depois eu acordei sem vontade nenhuma de viver, exatamente como eu me sinto nesse exato momento. Estou num lugar maravilhosamente lindo, cheio de coisas para fazer, coisas que eu gosto! Mas não consigo me levantar da cama do hotel.

Ontem enquanto andava sozinha pela praia, algo que eu adoro fazer, andar e estar sozinha, eu só conseguia pensar em acabar logo de andar para poder comer, depois que cheguei no restaurante eu só conseguia pensar em acabar logo de comer para poder ir na piscina, enquanto eu estava na piscina eu só pensava em sair logo para ir tomar e poder dormir…

Foi então que eu percebi que não é a primeira vez que eu me sentia assim, na verdade, eu SEMPRE me sinto assim. Raramente são os momentos que eu penso que não quero que acabe. Geralmente eu quero que as coisas passem logo porque tem algo melhor para chegar, que me fará satisfeita, mas nada nunca me satisfaz!

Me pergunto, isso é ansiedade? É a ansiedade que me deixa deprimida, e a depressão que me faz ansiosa? Como é que se quebra esse padrão?

Vício em resultados rápidos

Por algum motivo, hoje comecei a pensar que talvez o problema da minha vida seja a gratificação instantânea. Acredito que eu nunca tenha conseguido algo de sucesso por estar sempre em busca de resultados rápidos. Por exemplo, eu já escrevi vários textos, contos, poesias e cerca de três histórias grandes que dariam ótimos livros. Eu poderia ter investido nessas histórias?

Eu poderia! Mas optei por escrevê-las em formato de fanfiction. Para quem não conhece o termo, fanfictions são histórias escritas por fãs inspirados em alguma série, filme, livro, etc. Existe uma comunidade enorme de pessoas que escrevem fanfiction. Inclusive o livro “50 tons de cinza” é uma fanfiction de realidade alternativa inspirada nos personagens da saga Crepúsculo.

Poderia uma das minhas três grandes histórias ter me rendido meu próprio “50 tons de cinza”? Eu adoraria ter esse sucesso todo com minhas histórias. Mas por que eu não fui atrás de publicá-las? Porque parece algo impossível. Imagina quantas outras JK Rollwing já não escreveram seus próprios “Harry Potter” que estão mofando guardados no HD?

Eu sei que não é todo mundo que consegue fama escrevendo livros, além do que, publicar um livro é um processo demorado, complicado e baseado na sorte. Sorte de alguma editora gostar do seu livro a ponto de investir nele.

Deu o maior trabalho escrever aquelas histórias, e para quê? Para ninguém nunca me reconhecer por elas? O que eu fiz então foi pular todo esse longo processo rumo a publicação de um possível livro, e compartilhei a fanfiction na comunidade. A gratificação veio prontamente. As pessoas leram, comentaram, elogiaram, pediram por mais.

Gratificação instantânea!

Eu queria ter publicado aquelas histórias em formato de livro? Queria! Eu tinha a paciência de esperar todos os anos que demorariam para isso? Eu tinha fé para acreditar que eu teria a sorte de conseguir publicar? Não, eu não tinha, eu queria uma gratificação naquele exato momento. E obtive.

E esse problema influencia várias áreas da minha vida, principalmente a financeira. Estruturar-me e guardar dinheiro para comprar uma casa, parece algo impossível quando você olha o preço absurdo apenas da entrada da maioria dos apartamentos. Eu precisaria economizar o meu salário inteiro, por muito tempo, para conseguir o dinheiro da entrada depois me endividar eternamente num financiamento.

De fato, eu não vejo isso como algo possível de ser feito, quero ser feliz agora, com coisas que me proporcionam gratidão instantânea. Não consigo comprar uma casa, mas consigo comprar roupas novas que me fazem feliz, consigo comprar uma pizza na sexta-feira à noite para me alegrar, consigo comprar aquele relógio smart que tanto quero, mas estou me segurando.

Todas essas gratificações instantâneas me proporcionaram momentos de prazer e uma baita fatura no cartão de crédito. Fatura essa que precisarei pagar com o dinheiro que deveria estar economizando para um dia comprar uma casa. Então os meses se tornam anos, e as faturas continuam chegando, porém, a poupança continua vazia.

Pode até ser que a gratificação instantânea te mantenha feliz pela vida toda e você não precise ir atrás de recompensas mais profundas. O problema é que eu acabei me viciando nesses momentos rápidos de prazer gratuito. Não muito diferente de usuário de drogas, eu acabei precisando de prazeres mais frequentes, e minha fonte de gratidão instantânea já não me rende mais frutos.

Agora estou presa nesse estado depressivo onde nada me dá prazer. Talvez eu precise de um detox de gratificação instantânea.

Entretanto eu tenho esperança.

Nos últimos anos comecei a sentir algo mudando em mim em relação ao meu corpo, quando eu era novinha, adorava fazer aquelas dietas da moda, principalmente durante as férias e voltar para as aulas muito mais magra e arrasando. Conforme fui envelhecendo e o metabolismo diminuindo, foi ficando cada vez mais difícil emagrecer.

Eu até tentava, mas perdia a paciência, abandonava a dieta, os exercícios e me rendia ao sedentarismo. Cada vez comendo mais para me dar mais prazer instantâneo. Aceitação do meu corpo foi um processo doloroso, mas necessário. Se eu tivesse mantido o peso todas as vezes que consegui emagrecer eu não teria aprendido todas as lições que sei hoje.

Sempre fui uma criança magra com uma mãe gorda. Eu cresci ouvindo adultos dizendo que: – A Nanda é magra agora, mas quando crescer vai ficar igual a mãe dela. – Por mais doentio que fosse, eu fazia de tudo para não ultrapassar o tamanho da minha mãe. Só que foi preciso ficar gorda para perceber que eu era magra ante e não sabia.

Não só isso, foi preciso ficar gorda para perceber como a gordofobia é mais do que um problema de aceitação da sociedade, é mais do que o medo de ser chamada de gorda de forma pejorativa. É um preconceito estrutural, ser gorda é ir a um parque de diversão e ficar na fila se perguntando se você vai caber no brinquedo. É ir comprar roupas e a calça GG não passar nem na canela. É chegar numa festa de piscina e ficar com medo de sentar na cadeia de plástico e ela quebrar. É ir ao dentista e ouvir que talvez o seu problema seja o que você anda comendo. É ir no medico com uma dor na perna e ouvir que você precisa emagrecer.

Ninguém presume que o peso daquele seu amigo magro seja a razão da dor nas costas dele por passar todos os dias sentados. Ninguém se preocupa com o fígado daquela amiga magra baladeira. Mas todo mundo se preocupa quando você é gorda e tem uma crise de pressão alta esporádica no trabalho (devido a um ataque de ansiedade) e mandam você tomar mais cuidado com a sua saúde porque hipertensão é sério.

A saúde da pessoa gorda é um preconceito retrógado! Ser gorda é estar no exame admissional e ouvir o médico dizer: – Nossa, seus exames estão excelentes glicose baixa, colesterol baixo, a pressão 12 por 8, maravilha. Só falta emagrecer! – Se eu não tenho problemas de saúde, por que deveria emagrecer?

Pessoas magras também são doentes, elas também têm glicose alta, também tem colesterol alto, também tem problemas nas costas.

Eu precisei aprender que eu não tenho a obrigação de emagrecer. Agora eu quero emagrecer por mim mesma e tudo bem, não é por isso que eu sou contra a aceitação. É preciso se aceitar, é preciso se amar. É preciso entender que o capitalismo quer te ver gorda e insatisfeita, porque ele quer que você gaste dinheiro com fast food e depois compre shakes para emagrecer. O capitalismo quer que você consuma todos os tipos de tratamento estéticos desnecessários possíveis, e você só fará isso se estiver insatisfeita com você mesmo.

A partir do momento que eu entendi isso, eu não precisava mais emagrecer para ser feliz. Fazem dois anos que comecei um processo de emagrecimento, foram só doze quilos, pode parecer pouca coisa, mas são passos constantes. Não é uma dieta da moda que te faz perder dez quilos em um mês, para engordar quinze quilos nos próximos três. Não é uma dieta restritiva que me rouba o prazer de comer.

É um prazer durador, pois eu sinto ele todos os dias. Eu sinto prazer ao acordar as seis da manhã e ir malhar na academia. Não é martírio nenhum, é quase uma meditação, um momento só meu para cuidar do corpo. É gameficação, porque cada vez você evolui mais, e cada vez mais você quer ir a academia para não perder os pontos adquiridos. É sentir o exercício liberar endorfina, é sentir os músculos relaxarem com o alongamento e liberação miofascial.

Tomar uma ducha revigorante depois, e sentir a água acariciando sua pele que queima com o sangue que circula. Depois passar hidratante no corpo inteiro e se sentir refrescada.

O autocuidado é melhor presente que eu me proporcionei, ele custa quase nada, ele não é uma gratificação instantânea. Ele me faz feliz todos os dias e me dá um proposito para acordar. Agora preciso aprender como fazer o mesmo para todas as áreas da minha vida.

Talvez seja preciso aprender a me amar e me cuidar em cada momento da vida. Sei que sou capaz de chegar lá, apenas preciso perder o vício da gratificação instantânea.

Que será, será?

Não, a minha semana não foi tão boa quanto eu esperava, um lado meu pensa logicamente que recaídas fazem parte do processo, um outro lado já está se desesperando. A semana começou “ótima” com um tremor incessante nos olhos que se prolongou por três dias seguidos. Lá estava eu me perguntando: — O que está acontecendo? Isso é efeito do remédio? Ai meu Deus, estava me adaptando tão bem com o remédio e agora vai tudo para o saco!

Só para ajudar ainda mais as minhas noites foram enfeitadas com lindos pesadelos, maravilha! Só hoje, em plena sexta-feira feliz é que fui me dar conta que isso tudo começou com o dever de casa da terapeuta.

Quando eu era pequena, perguntei a minha mãe o que eu seria.
Se eu seria bonita? Se eu seria rica? Eis o que ela me respondeu:
(Que será será)

Ela me disse que eu deveria pensar no meu futuro, aparentemente minha depressão pode ter começado porque eu não tenho metas para o futuro, então não tenho um proposito na vida para acordar, ir trabalhar e vencer a procrastinação. Olha, se tinha uma coisa que eu estava evitando a todos os custos era pensar no futuro, até o dia de hoje eu não sabia por que eu evitava, agora ficou claro. Vou tentar explicar tudo da maneira mais coerente possível.

– Eu estou ótima! — Eu dizia para todo mundo inclusive para mim. — Eu venci a ansiedade, descobri a formula mágica e nunca mais tive crises de ansiedade. — Eu virava para minha namorada que estava em crise de ansiedade e dizia: — Meu amor, pode deitar no meu ombro e chorar, porque eu venci a ansiedade e agora serei forte para você.

Uhuulll!! Um ponto para mim, ansiedade zero!

Que formula mágica é essa? Você me pergunta. Hoje me lembrei de quatro anos atrás, quando cheguei no consultório da minha antiga terapeuta, feliz da vida porque eu tinha decidido para de pensar no futuro.

– Toda vez que eu penso no futuro, eu fico desesperada, agora decidi viver o presente, e acreditar que o que tiver de ser, será. Agora eu me sinto aliviada.

Foi maravilhoso para mim, uma control freak, que queria planejar tudinho. Que já tinha a vida toda planejada desde os 12 anos de idade, finalmente sossegou. Planejar a vida é como fazer uma planilha de orçamento, você anota todos os gastos, decide o que dá para cortar, define o budget para o próximo mês, e tah-dah, você acaba gastando mais do que no mês anterior que não tinha planilha.

Quanto mais você define metas, mais as coisas saem do plano, quanto mais as coisas saem do plano, mais angustiada você se sente. Então parecia lógico, não? Vamos parar de planejar, não interessa o que vai acontecer amanhã, tudo o que vale é hoje. Pois afinal de contas, não existe passado nem futuro, tudo o que existem sempre é o presente.

Que será, será, whatever will be, will be.
Não cabe a nós olhar o futuro, o que será, será!

E funcionou, nossa, como funcionou! As brigas em família pararam, a ansiedade foi controlada, a vida seguiu em frente na calmaria.

Mas eu ignorei um detalhe. Tenho uma analogia básica para explicar esse detalhe para todas as pessoas que assim como eu já foram viciadas nos famosos descongestionantes nasais. Você fica gripada, consequentemente o nariz entope, você tem problemas para dormir com o nariz entupido, sua vida fica uma merda. Algum amigo caridoso (traficante) lhe apresenta ao descongestionante nasal. A primeira gotinha é horrível, parece que você vai se afogar, o nariz queima todo.

Um minuto depois você percebe que está respirando normal, é um alívio, a vida é linda de novo. Já se perguntaram por que não há remédio para gripe? Será mesmo uma falha da ciência? Ou será que é muito mais rentável vender remédio para mascarar os sintomas? Os malditos sintomas da gripe:

Dor de garganta… Pastilha!

Dor de cabeça… Dipirona!

Sonolência… Que tal um remédio com dipirona misturado com cafeína?

Quem se importa se cafeína já vem no cafezinho quase de graça?

Insônia… Que tal um remédio diferentásso? Com uma dose matinal de antitérmico, e uma dose noturna de antitérmico com antialérgico que dá sono. A gente vende como diferencial e cobra horrores por isso.

Nariz congestionado… Apresento-lhe o famoso descongestionante nasal, VOCÊ PRECISA DISSO!

Conta da farmácia: R$ 90 para uma semana de gripe.

Acho melhor eu parar por aqui, se não vou começar a listar todos os motivos pelo qual o capitalismo está arruinando nossas vidas, vai vir gente aqui me mandando ir para Cuba. Já vejo até o comentário: — Pior que socialista de iPhone, é você falando isso enquanto trabalha numa indústria farmacêutica.

Verdades da vida, meu caro!

A questão é que me colocaram aqui nesse grande tabuleiro de um maníaco jogo da vida, não fui eu quem fez as regras do jogo, mas as cartas de revés vivem chegando como boletos atrasados e eu tenho que fazer o que der para não chegar em último lugar.

O grande detalhe é que: Não interessa que eu estava com gripe, a gripe vai acabar e eu não vou fazer nada para evitar a próxima gripe. Porque o meu incomodo não era a gripe, era o nariz entupido. E sempre começa com uma gripezinha, depois você começa a pingar uma gotinha de descongestionante antes de dormir, só para dar uma ajudinha no sono; no final você acaba usando aquilo a cada duas horas do seu dia por causa do efeito rebote.

Eu confundi gripe com nariz entupido… Eu confundi doença com sintoma… Eu confundi transtorno de ansiedade com desespero, crises, falta de ar, pânico, choro, e muito mais! Eu descobri qual era o meu gatilho, eu evitei ele a todo custo e eu me livrei de todos os sintomas ruim.

Mas a minha querida ansiedade continua aqui, só esperando a próxima vez que alguém apertará o gatilho.

E foi o que aconteceu essa semana! Acho que tudo começou com a exaustão física de pegar avião e mudar de rotina, o que só complicou as coisas. Depois comecei a ler o livro “O negócio do século XXI” indicado pela a atual terapeuta, e não foi nada legal.

Basicamente, senti como se o autor do livro estivesse julgando todas as escolhas que fiz em minha vida. Porém, não senti como se o autor fosse um guru de finanças que ele é, senti que a voz do livro fosse alguém dentro de mim que há anos eu vinha reprimindo.

Ela dizia: —  É o seguinte! Você está no jogo da vida, lá na frente estão os seus competidores, eles todos têm um carro maravilhoso, com casa própria, dois filhos no banco de traz, caminhando em direção do ao pote de ouro no final do arco-íris. E você está aqui, com dois dadinhos que sempre caem no número um, você não avançou em nada, você não tem dinheiro para ter nada nessa vida, e você nunca será ninguém. E a culpa é toda sua, você foi programada para pensar que esse é o caminho mais seguro e não tem a capacidade que se precisa para sair daqui.

Talvez não tenha sido essa a intenção do livro, mas foi essa a conclusão que tirei dele. Tive um grande pesadelo sobre isso, acordei completamente sem controle de mim mesma. Quis parar a terapia, fiquei com raiva da terapeuta por ter me indicado um livro que foi um gatilho. Fui lá e fiz merda, mandei um textão no WhatsApp para terapeuta sobre a falta de responsabilidade dela com sua paciente em crise de depressão.

Me senti empoderada com o texto, como se eu tivesse feito a coisa certa e dito algumas merecidas verdades. Depois eu comecei a pensar mais sobre o assunto e independente do fato de que essa crise seja parte do processo terapêutico ou não, comecei a pensar no fato de que ela é apenas humana e humanos cometem erros, e ainda por cima acabei de começar a terapia, ela não tinha como prever que o livro seria um gatilho para mim.

A vergonha veio logo na sequência, mas não foi ruim! Nem fiquei ansiosa, antigamente eu teria ficado desesperada até ela me responder, ou até mesmo ia ligar chorando. Mas não, eu racionalizei e tentei tirar o melhor proveito da situação. Pensei da seguinte forma, ela é minha terapeuta:

1. Se ela se ofender, está fazendo seu trabalho da forma errada.

2. Se ela me julgar, também está fazendo seu trabalho da forma errada.

3. E por ser terapeuta, ela não tem acesso ao WhatsApp como as outras pessoas, ela iria me responder quando não estivesse em atendimento.

Decidi confiar no trabalho dela como terapeuta e acreditei que quando ela me respondesse não haveriam repercussões negativas. E foi exatamente isso que aconteceu, ela pediu desculpas pelo livro, disse que foi escrito por um guru de finanças e indicou, pois, achou que me faria bem. Sei que foi com a melhor das intenções, mas meu eu movido a ansiedade não quis ouvir a razão naquele momento.

De qualquer forma, meu desabafo com a terapeuta não foi em vão, ela disse que foi excelente para me conhecer melhor, e entender mais sobre mim, algo que ela talvez demorasse várias sessões para entender. Ela foi calma e empática e se mostrou muito preocupada. E isso acalmou qualquer parte de mim que estivesse com medo de ser julgada.

Mas o livro não deixou de ser um gatilho, o que significa que a bruxa (ansiedade) estava solta. Estou escrevendo tudo isso hoje porque essa noite novamente tive mais um pesadelo perturbador. No pesadelo eu estava dormindo num colchão da minha sala, e fui acordada pela filha de dois anos da minha prima, fingi continuar dormindo para entender o que estava acontecendo.

Minha prima estava sentada na mesa com o marido dela do qual nunca conheci, eles tomavam café e falavam mal de mim. A filha deles brincava com a minha sobrinha. Quando eu finalmente levantei, minha mãe me levou para uma padaria, onde toda a família dela estava também tomando café. Comecei a lembrar que era o dia do meu casamento.

Quando vi toda a família reunida, eu percebi que estava só com um shorts de pijama e uma tolha cobrindo os seios. (Observação importante: tenho sonhos constantes sobre estar nua em público, mas dessa vez eu não estava completamente nua.) Todo mundo da família começou a me olhar julgando, foi quando eu me dei conta de que estava quase nua, por que raios eu havia saído de casa daquela forma?

Então veio uma sequência de acontecimentos incoerentes, de alguma forma eu estava escorregando no quintal da minha antiga casa da forma que fazia quando criança. Com o chão cheio de água e sabão. E eu tentava me segurar a toalha para não mostrar meus seios.

De repente estávamos no casamento, tudo muito lindo, todo mundo feliz. Eu fui até o pessoal do trabalho agradecer a presença deles. Meu chefe já bêbado e felizão me abraçou e começou um discurso sobre mim, eu entrei na dele e comecei a chorar. Por fim eu descobri que eu tinha uma barriga de três meses, eu estava grávida.

Quando eu acordei hoje, estava desesperada. A lição de casa da terapeuta era pensar no futuro e planejar metas. Não tem nada que eu mais queira do que comprar uma casa, casar e ter filhos. Acho incrível como o universo conspira, foi só eu começar a pensar nesse assunto que uma colega de trabalho me contou que tinha feito inseminação artificial.

Até então eu tinha 99% de certeza que eu queria adotar uma criança porquê: Um, eu sou muito cagona para dor; dois, tem tanta criança no mundo precisando de ajuda, para que eu ia pagar para ter um filho?

Até então, inseminação não era uma realidade para mim, era caríssimo, era um procedimento que poderia não resultar em sucesso. Mas então essa colega me contou que fez pelo plano de saúde da empresa e só pagou pelos remédios. Eu fiquei empolgadíssima com a novidade, deu até vontade de largar tudo e: — Querida, vamos ter um bebê?!

Quando eu cresci e me apaixonei, perguntei a minha amada, o que nos espera?
Será que teremos arco-ires, todos os dias? Eis o que ela me respondeu:
Mas lembrem-se, a bruxa estava solta, logo ouvi a mesma vozinha que narrou o livro me dizer: — Você está louca?! Vai ter filho como? Você passa um final de semana com sua sobrinha de 7 anos e sai dele morrendo de cansaço. Como é que você vai fazer com um bebê? Sete dias por semana e sem conseguir dormir? Você será um fracasso, você não tem capacidade de ser mãe.

Voz da razão: — Miga, sua louca, para que está feio. Não é para tanto, todo mundo tem filhos, todo mundo se vira. Minha namorada e eu organizamos o aniversário da minha sobrinha, foi um sucesso! Ainda por cima eu estava cuidando de um bebê. Seremos boas mães!

Voz da ansiedade: — Amor, eu digo isso para o seu próprio bem. Se liga que você não cuidou de bebê nenhum, a mãe dela estava lá o tempo todo, você brincou com um bebê por 20 minutos depois saiu para ter sua vida normal de tia sem filhos. Um bebê não é só 20 minutos de brincadeiras e depois devolver para o colo da mãe. Um bebê é ficar acordada até as três da manhã cuidando de um serzinho indefeso que não para de vomitar, e depois que o bebê melhorar as três da manhã ele não vai te deixar dormir porque quer brincar com você. Você não tem capacidade disso, você só organizou uma festa para cinco gatos pingados, e terminou o dia completamente exausta, quem cuidou do bebê vomitando não foi você.

Voz da razão: — Mas todo mundo tem filhos, eles acham a força de algum lugar.

Voz da ansiedade: — Você não é todo mundo, você é pateticamente fraca, vai tirar forças da onde? Você não consegue nem lidar com uma gripezinha sem se queixar. Vai fazer isso como?

Voz da razão: — Difícil você, hein? Eu preciso planejar um futuro, filhos são parte dos planos.

Voz da ansiedade: — hahahahahahahaha *respira fundo* hahahahahahaha, ai, ai, essa foi boa. “Planejar um futuro”, a pessoa fala isso com os olhos até brilhando. Milha filha, que futuro você quer planejar? Comprar uma casa? Você sabe quanto custa uma casa? Você sabe que você não consegue nem passar o mês sem pedir dinheiro para sua mãe? Você quer comprar uma casa como? Casa é coisa de gente rica, você nunca terá uma casa. Oh, tadinha, pensando em filhos no futuro, não consegue nem viver o presente sem entrar em depressão e quer um futuro com filhos. Filhos dão trabalho, filhos custam dinheiro. Da onde você vai tirar forças e dinheiro para ter filhos?

Voz da razão: — Mas é possível!

Voz da ansiedade: — VOCÊ NÃO É CAPAZ!!!!

Agora a ansiedade está me vencendo de sete a um. E é muito difícil não dar razão a ela, quando seus argumentos são tão lógicos. Só sei que acordei completamente enjoada, com a cabeça a mil, pensando em todas as formas que tudo pode dar muito errado. Me lembrei de que a única coisa que me mantem dignamente viva, sobrevivendo em meio as dívidas, é o salário que cai na conta todo mês, que não dura nem uma semana e já entro no cheque especial de novo. Salário esse que a qualquer momento eu posso perder, e aí faz como?

Faz como para ter casa e filho desse jeito? Eu não sei!

Que será, será, whatever will be, will be.
Não cabe a nós olhar o futuro, o que será, será!

 

Era melhor sem pensar no futuro e não sentir esse pânico? De fato, era muito melhor sim. Mas não significava que eu estava milagrosamente curada. Eu espero conseguir trabalhar melhor a ansiedade e a depressão, pois nesse momento a vida parece tão sem gosto, como se eu fosse um ratinho andando naquela roleta o dia todo, sem sair do lugar.

Em busca da inteligência emocional

Venho me sentindo muito melhor em relação a depressão, comecei a sentir prazer ao assistir vídeos no youtube novamente, e isso me aliviou profundamente. Também tive um ótimo feriado prolongadíssimo, descansei horrores, o que me deu um folego para as tarefas do trabalho. Não sei se isso é efeito do medicamento, ou se coincidiu com o descanso, talvez um pouco dos dois. O que importa é que estou melhorando consideravelmente e isso me anima.

Venho pensando muito sobre inteligência emocional, e como ela é fundamental para termos boas relações interpessoais. Acho que vacilei bastante com a minha mãe principalmente durante a minha fase de fúria, e sei que teve um efeito negativo em outras relações também. Então passei a estudar o que as emoções significam para mim, principalmente por estar trabalhando elas em terapia.

Eu me defino como uma pessoa muito empática com os sentimentos dos outros, inclusive eu acho que perdoo as pessoas com muita facilidade. Às vezes fico chateada comigo mesma por não ter forças de mostrar para as pessoas quando elas me magoam. A raiva que sinto parece ter uma função positiva de me mobilizar quando estou sendo injustiçada, ao mesmo tempo que ela afeta negativamente minhas relações.

A rainha da paz sempre faz tudo para agradar.
Serve de alguma coisa? Alguém sempre sai perdendo.
(Queen of Peace — Florence and the Machine)

Eu de fato não sei o que se passa na minha cabeça, é deveras estranho. Eu sinto como se eu não tivesse o direito de ficar chateada com as pessoas, e toda vez que o ódio começa a ferver, eu engulo seco e reprimo o impulso. Instantaneamente eu perdoo a pessoa, eu entendo por que ela está se sentindo daquela maneira e eu passivamente abdico dos meus sentimentos em prol do bem estar, seja da relação em si, ou até mesmo do bem estar emocional da pessoa.

Estou cada vez mais certa de que a sombra da minha personalidade é a raiva. Algo primitivo do ser humano, mas que eu o reprimo por percebê-lo como um sentimento imoral. E por esconder tanto, ela acaba saindo do meu controle e me pego perdida, socando paredes em surtos de raiva.

Como um longo riacho, suportei todo esse eco.
Qual o sentido disso? Quando tudo que sobrou foi mágoa.

Para aprender a lidar melhor com a raiva, eu preciso expandir meu vocabulário emocional e tentar clarear esse lado sombrio o máximo possível. Para isso preciso perceber que quando sinto raiva de pessoas andando lentamente na rua, me atrapalhando de chegar ao meu destino mais rápido, na verdade eu me sinto ansiosa por não conseguir ser pontual e fico brava comigo mesma por não ter saído mais cedo.

Acontece que eu não saí mais cedo pois enrolei deitada na cama o máximo que pude, para aproveitar cada segundo, porque eu sinto como se eu não tivesse mais tempo para estar sozinha comigo mesma curtindo um tempo só meu.

Também sinto raiva quando estou concentrada em uma tarefa, e alguém me chama para falar de outro assunto só que a pessoa não vai direto ao ponto e fica falando eternamente; na verdade isso me irrita, pois eu tenho problemas de concentração e sei que quanto mais eu demorar para voltar a minha tarefa, mais alta serão as chances de eu perder o ritmo que estava.

Me sinto frustrada quando as pessoas não entendem o que eu explico, pois não sei se foi falta de coerência da minha parte, ou desinteresse do interlocutor. Fico extremamente chateada quando as pessoas não respeitam as regras que eu imponho pois é desrespeitoso comigo. Fico furiosa quando me cobram coisas fora do tempo hábil de entrega, pois sinto que nunca sou reconhecida pelos meus sucessos, apenas pelos meus fracassos.

Entretanto consigo controlar bem a raiva nesses momentos, talvez minha cara deixe escapar nuances de incomodo. Eu só perco o controle quando me sinto sendo machucada. Recentemente tive um acesso de fúria em uma briga com minha mãe, naquele mesmo dia de manhã eu havia enviado a ela uma reportagem sobre política, ela ignorou a matéria e nem respondeu. Mais à noite ela me mostrou um vídeo também sobre política também, e fiquei revoltada com a situação de dois pesos duas medidas.

Isso é uma situação muito recorrente, as pessoas costumam mesmo supervalorizar suas próprias ideias, necessidades e quereres ao ponto de que o outro fique em segundo plano. Dois pesos, duas medidas! Acredito que por eu ser uma pessoa muito empática, eu constantemente me policio para evitar de supervalorizar o meu acima do outro. Quando não encontro reciprocidade eu me sinto muito injustiçada.

A briga logo se escalou para um aponta dedos de “você isso” e “você aquilo”, logo eu estava esmurrando a mesa da cozinha. Mas não foi ai que tudo se perdeu, foi quando minha mãe se levantou para sair, eu segurei sua mão e perguntei: — Onde você vai?

— Vou sair de perto antes que você me bata! — Parece até clichê, mas naquele momento eu vi vermelho, como se eu conseguisse sentir o sangue pulsando em cada veia do meu corpo. Eu berrei incoerências, eu me tranquei no quarto e chutei a porta implorando para ficar sozinha. Depois que o ataque passou, com os dedos inchados e a garganta arranhada, eu não conseguia parar de pensar em como era injusto depois de 30 anos de convivência com minha mãe, ela ainda achar que eu seria capaz de encostar a mão nela.

De repente sinto-me possuída, me dissolvendo como o pôr do sol.
Como um barco sumindo no horizonte porque você me afastou de você.

Acho que as palavras chave para descrever minha raiva são: injustiça por não receber um tratamento empático recíproco, frustração por falta de reconhecimento de todas as outras vezes que eu fiz a coisa certa, frustração por não conseguir expressar minha mágoa coerentemente, revolta com a falta de respeito dos outros quanto a minha dor.

Eu não consigo falar sobre meus sentimentos, talvez seja porque todas as vezes que eu tentei eu fui calada por pessoas que os deturparam. Ou talvez minha maior raiva seja comigo mesma por sempre ter colocado os outros em primeiro lugar ao ponto de agora eu acreditar que meus sentimentos são menos valiosos.

E o meu amor não é páreo para o gigante no qual ele te transformou.
Sangue a flor da pele, são as dores que guardei.

Cabe só a mim retomar o meu espaço, expressar meus sentimentos, impor meus limites, ir atrás das minhas vontades.

Mas acho que a grande questão aqui é como fazer isso sem ferir os outros. Sim, a raiva é uma ótima ferramenta para perceber quando estou sendo injustiçada, mas não posso dar poder a ela pois palavras e ações munidas de ódio costumam ser muito nocivas para os relacionamentos. E a última coisa que eu quero é ferir meus relacionamentos.

Também não posso achar que a culpa do meu fracasso em impor minhas próprias vontades é inteiramente da empatia. O que a inteligência emocional tem para me ensinar hoje é que raiva e empatia não são sentimentos excludentes, e cada um tem sua função para me manter viva como um ser pensante.

Como as estrelas que perseguem o sol sobre o vale iluminado
Eu hei de vencer.

É preciso deixar-me sentir magoada com os outros, mas também é preciso compreender o que o outro está sentindo. É preciso entender que conflitos sempre vão existir e a melhor forma de lidar com eles é ser o mais clara possível sobre meus sentimentos, fazer-me ser ouvida, mas nunca deixar de ouvir o sentimento dos outros.